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Lê aê...seu merda!
Na entrada do bar, uma catarrada no mesmo lugar de sempre, para marcar o território, uma puxada no saco, que pela falta do uso de cueca, cola nas coxas com o suor, e um grunhido: “I aê, Leprinha! Colé merma?”. Em tempo, Leprinha é o dono do bar, que tem este apelido não se sabe o porque, mas pela feiúra, desconfia-se. Leprinha, como qualquer dono de boteco antigo, sabe da vida de todo mundo. E sabe da vida do nosso herói também. Por isso, não nega-lhe uma, duas, três ou quatro, doses de Caninha da Roça. É exímio jogador de sinuca e dominó, se diverte com as brigas no seu estabelecimento alcoólico-comercial, torce pro Esporte Clube Bahia, detesta polícia e é mestre em proxenetismo. Sua filha fugiu de casa aos doze anos de idade, apaixonada por uma vizinha de 43 que a aliciara nos tempos em que ficava só em casa pro pai poder trabalhar. Leprinha nunca teve mulher fixa. Karla Stéfannie era filha dele com Samantha, uma prostituta que morrera assassinada pelo dono havia uns cinco anos. Leprinha quase enlouqueceu, caiu feio na cachaça, mas depois viu que não poderia cuidar de Karla Stéfannie e do bar ao mesmo tempo e tratou de esquecê-la. Nosso herói não é de falar muito. Mas como Leprinha é o único que lhe dá ouvidos, passa horas e horas contando mentiras, falando merda e expondo sua flatulência naquela mesa de bar. De vez em quando até joga uma sinuca com algum outro desafortunado que conseguiu uma moeda. Em suma, o antro de infelizes bêbados que Leprinha chama de “bar”, é o único lugar onde nosso herói se sente aliviado da artilharia de escárnio que enfrenta diariamente. Alta madrugada. No bar, só Leprinha e o nosso herói conversando e tentando acertar pedras nos ratos que surgem de todos os orifícios do recinto. No balcão, o baratume é digno de fotografia. A garrafa de cachaça dividida entre os dois está no fim. Leprinha quer fechar o bar. Nosso herói levanta, coça a barriga, descola o saco das coxas, dois passos para fora do bar e muito, mas muito vômito. O cachorro que dormia sua sarna na calçada desperta e dá-se a saborear os restos de detrito intestinal do nosso herói. No caminho pra casa, a chuva volta a cair. Nosso herói se arrasta, tateando as paredes cinzas, tropeçando nos montes de lixo esquecidos pelo caminho. Percebe que está urinando nas calças. Pelo menos é algum calor! Um carro passa e borrifa o chorume que vertia dos latões de lixo dos prédios bem no rosto do nosso herói. Em seguida, ouve um grito, uma batida e uma gargalhada. Olhando para trás, percebe que o mesmo carro acabara de atropelar seu amigo Leprinha, transformando-o numa massa de ossos quebrados, miolos e sangue. O cachorro, mais uma vez, corre ao banquete, balançando o rabo sarnento. Nosso herói tenta voltar para ver a desgraça do amigo mais de perto. Escorrega num dos bolos de merda de cachorro e de gente que costumeiramente encontravam-se nas ruas daquele bairro, bate a cabeça no meio fio com violência e desmaia. A chuva trata de encerrar a triste vida de um herói. E é assim, afogado numa poça imunda de chuva e merda, bêbado, com a cara cheia de chorume e todo mijado, que nosso herói encontra o alivio da morte. O mundo agradece tamanha benção. E o cachorro sarnento terá suprimento alimentar para mais uma semana.
Escrito por Sacy às 23h46
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(((O HERÓI)))
Acordou ainda meio embriagado. A ressaca comprimia-lhe as têmporas sem a mínima cerimônia. A tarde já ia longe no relógio e estava aborrecida, embebida numa chuva negra e uniforme que esmurrava as janelas verde-limo do apartamento. Uns cinco minutos ainda na cama, pra tomar coragem de erguer-se a mais um dia de derrotas e conseqüentes lamentos. Uma ponta de cigarro pra dar energia, um gole de café gelado de anteontem só pra chamar alguma coisa de “café”, e a golfada matinal rotineira (no chão), anunciam ao mundo o despertar do nosso herói. Um ser que só deixa claro sua carga de humanidade pela presença do polegar opositor (aquele de Ilha das Flores). É que ele é o que se pode chamar de: um ser desprovido de qualquer traço físico que não seja digno de piada e nojo. Nosso herói, em suma, é um erro de cálculo de Deus. Se é que foi Deus que fabricou tal miscelânea de feiúras e fedores. Herói carrega algo de venturoso ou admirável. E é mesmo de se admirar que o nosso herói esteja conseguindo manter-se vivo. Um ser humano gordo, branco, cabelos compridos (não por moda, mas por desleixo), barba por fazer, um rosto horrendo, repleto de todas as formas e níveis de infecções e doenças por todo o corpo, pernas curvadas, sempre descalço e a jorrar constantemente cachoeiras de um suor fétido e pegajoso. Agora ele se arrasta até o toca discos, onde jaz eternamente um LP da banda Antônimous, larga displicentemente a agulha do som, que depois de um arranhão sonoro, faz ecoar a canção “Dia Morto”. Neste momento o dia toma ares de alívio para o nosso herói. A banda Antônimous é uma das pouquíssimas formas de energia que acalmam sua alma desorientada e ultra-depressiva. O suor passeia em todo o corpo disforme e flácido, que de cócoras na bacia multi-uso, tenta expelir alguns pedaços de merda que, petrificadas, teimam em não vencer o esfíncter. A força brutal despeja na bacia multi-uso, um bolo maciço de cocô e, na seqüência, um jato líquido de excremento amarelo-esverdeado, de um aroma ímpar e profundamente lamentável. Nestas horas, a leitura é imprescindível. Bukowiski é o autor preferido. Está sem dinheiro, cheio de dívidas, não tem o que comer, a bomba de cachaça vagabunda surrupiada do mercadinho, que lhe assegurara a calma da noite anterior acabou. Não tem água em casa e nem faz questão. Banho, só quando dorme bêbado na rua e chove. Quer abrir a janela, o calor é insuportável. Mas a chuva vespertina não dá trégua. Então, limpa o cu com jornal, cobre a merda da bacia multi-uso com mais jornal, veste a bermuda e resolve sair na chuva mesmo. Destino: bar. No caminho, vai reparando nos rabos das vadias que por ele passam e se afastam com asco de tamanha ignomínia física. Repara que há naqueles olhares um sentimento habitual de incômodo, que nem lhe aborrece mais, mas lhe diverte. Sim, pois de algum modo ele conseguia, com sua presença, amargurar o ambiente do mundo que o cercava com grades de desprezo, nojo e mesmo ódio pela sua existência num mundo tão perfeito e inabalável, com seus padrões e conseqüentes benesses a quem os seguisse. (CONTINUA...AGUARDE)
Escrito por Sacy às 16h49
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Pra quem duvidava que tinha um belo final para o conto bostil

Sentada no chão da caverna, tratando o scaitchuflai pra poder cheirar... para um pouco, um gole de vinho... volta a tratar a parada..., para, pau no cigarro, volta...O nariz escorre e cada narina pede a quantidade justa de prazer. Os estímulos cerebrais mais profundos estão agora em ação...tra...traduzidos em tremor. Uma espécie de pânico da realidade melancólica que a cerca. Ziiiiiiiiiiinnnnnnmmmmm.................! UuueeeEEeeiiiIIiinnmmm.................! Pronto...agora só ela sabe onde está...ou talvez nem saiba...Ou possa até mesmo criar seu lugar...com suas leis físicas e espirituais.... Ziiiiiinnnnnmmm...Preciso comer alguma coisa...beber alguma coisa- ... preciso coisar......ziiiiiiinnmmm...Academias e sofás...inimigos mortais....uuueeeiiiinnnmmmm...
Uma viagem de imagens interrompidas no tempo e no sentido. Lembranças da infância profanada pelo desalento da orfandade. O primeiro baseado, a primeira pica, a primeira buceta, o primeiro aborto, infinitas lágrimas contendo em si a dor de ser só. As surras físicas e morais sofridas ao longo da adolescência de menina-puta-louca.... Vol...ta... De volta, vontade de beber... - Cadê aquela cerveja, porra?...Ah, tá aqui!
Beleza de gole. Gostava de beber e falar sozinha. Talvez por costume, ou por loucura mesmo. E ela não viveu feliz para sempre...todo mundo morre, porra!
Escrito por Sacy às 23h17
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Textos Maravilhosos do Sacy
 Ela viu na TV uma promoção de scaitchuflai no shopping ao lado de sua caverna. Eram cinco gramas do mais puro e concentrado pó com trinta por cento de desconto. Porém, o cartão magnético de valores transacionais estava sem crédito. Catou então algum valor em fichas plásticas comerciais e foi ao shopping. Estava esbaforida, nauseabunda, perplexa e com uma expressão de quem acabara de plantar as mais cortantes agruras no próprio ventre. Já no shopping, entrou no stand de distribuição comercial de derivados de scaitchuflai e procurou uma das bastardas que lá trabalhavam em regime de semi-escravidão. Aquelas mulheres que tinham entre onze e trinta anos trabalhavam ali em troca apenas de um ou dois gramas de scaitchuflai por semana. Encostou no balcão, piscou para a infeliz mais gostosa do estabelecimento, uma morena de uns 35 anos, corpo de rainha malfazeja da beleza sádica:
- O sua puta! Chega aí! - Sim senhora, posso ajudar? - Eu vi a promoção de pó na TV e quero levar cem grama! - Pois não, senhora. Aguarde um momentinho que eu vou ao estoque providenciar. - Vá logo, vadia!
E a infeliz vendedora adentrou aos bastidores do stand colorido. Enquanto andava, coçava a buceta com a força de fazer barulho ao roçar as unhas no jeans. Estava precisando ir ao médico de buceta, mas tinha que trabalhar. E além do mais, Dr. Broxado, ginecologista da família, só atendia a quem lhe deixasse examinar o local medicado através de tato peniano. Mas isso não vem ao caso...é composição caótica gratuita. - Aqui está, senhora. Cem gramas de Scaitchuflai Mix : A mais pura do mercado. - Me da logo essa desgraça, porra! Que demora do caralho! - São 700 créditos, senhora. - Ah! Toma logo essas porra dessas ficha e vá se fudê! - Obrigado e volte sempre!
Saiu do shopping em direção à caverna com a pressa de quem precisa cagar, andou todo o estacionamento pensando em comprar um automóvel, fuder, comer um ouriço cozido e cheirar seus cem gramas de Scaitchuflai Mix sozinha. (((CONTINUA...AGUARDE!!!)))
Escrito por Sacy às 16h14
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