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Muito tempo pra pensar e pouca coisa em mente. E o que tenho aqui são o medo, a saudade, a preguiça e um pouco de ódio por algumas pessoas e coisas que ainda resta no meu coração. Tudo misturado como numa nova espécie de caos, cuja única razão é tornar a existência cada dia mais psicologicamente insuportável.
Habito regiões inóspitas dos sentimentos mais ácidos e amargos. É no meio da névoa que re-descubro com clareza a certeza de que não existe paz.
Recheio meus dias com uma embriagues covarde e que nem me alenta mais. E o faço mais por costume. Hábito desesperado de quem padece da tradicional necessidade humana de fugir do mar de infortúnios e desgraças que assola toda e qualquer pessoa que perceba a face real deste mundo idiota.
Acordar de manhã significa despertar para mais umas dezoito, vinte horas de tortura. Eu me torturo. Assim me sinto mais familiarizado com as intenções de quem me rodeia. E além do mais, ajudo no andamento natural das coisas. Começo o trabalho que será finalizado quando eu for dormir. E no dia seguinte...mesma seqüência.
Eu tenho uma marca entre o indicador e o polegar da mão esquerda. Ela foi nascendo com o tempo. É fruto de um cacoete, uma agonia constante que eu sinto a todo momento, ininterruptamente desde que tinha uns dez anos e descobri que a desgraça, na acepção da palavra, pode estar no próximo passo da próxima caminhada.
Penso em mortes violentas. Convulsões intensas, muito sangue, cortes profundos, fraturas expostas por todo o corpo, afogamentos nos mais variados tipos de vômito, carnes rasgando lentamente. Penso em fedores. Queijos, lixo, esgoto, merda, gente!
São 15:30h e na TV passa a novela. O calor implacável lembra que o inferno está sempre aqui dentro de mim. Crianças gritam feito almas desesperadas acabando com o último silêncio relativo que agora há pouco me acalmava parcialmente. Mal sabem estas pobres criaturinhas, tão lindas e frágeis, que a beleza se vai e a fragilidade cresce latente com o passar vagaroso dos anos. Mal sabem que os jogos que agora dissimulam aos berros irritantes, prolongam-se e transmutam-se diariamente nas relações revestidas de falsidade que se agrupam dia-a-dia.
A derrota parece estar aqui agora, como sempre. Uma das crianças, uma menininha de uns quatro anos caiu e bateu a cabeça na parede com extrema força. Está desacordada agora e os demais riem em volta dela, como que debochando de tanta dor. Dor que desconhecem, mas que não há de tardar em se apresentar. Parecem anjos do mal, correndo em volta do cadáver virgem.
Agora todos choram.

Escrito por Sacy A#-3 Bebum às 16h48
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