(((SACY BEBUM)))
 

O comportamento intrigante de Gerôncio era notado em qualquer lugar. Na rua, chamava atenção pela pressa dos passos, num anti gingado que emprestava-lhe um triste ar robótico. As pernas não flexionavam o suficiente para garantir uma mobilidade comum. O olhar arregalado insistente e os movimentos rápidos do pescoço a mirar as pareder dos prédios ao redor eram de fazer criança chorar.
Agia como se mergulhado numa pesquisa doentia em que o objeto de análise só se pode até hoje imaginar, já que Gerôncio só falava o estritamente necessário, sempre à noite, aos seus exclusivos interlocutores imaginários que habitavam a escuridão adorável do cômodo em que Gerôncio nutria sua insônia com paixão.

Camisa social branca abotoada até o pescoço, sem estampa ou marca de fábrica. Calça jeans azul clara, com alguns anos de uso. Chinelos pretos de borracha gasta. Barba a cobrir a parte central superior da caixa torácica. Óculos de grau de grossas lentes esverdeadas adornavam metade do rosto enrugado de Gerôncio. A pele em um tom branco-amarelado-insalubre revelava o pouco ou nenhum conforto sentido ao caminhar pelas ruas sempre imundas e ensolaradas da cidade.

Gerôncio, psicólogo de formação, alcoólatra por descuido, mal humorado em virtude (?) do histórico de desgraças que o atormentava, foi aposentado por invalidez em circunstâncias duvidosas. Os filhos roubaram-lhe todo o dinheiro por meio de interdição judicial e largaram o definhado pai ao próprio azar.

Toda segunda-feira, das 23:45h às 04:20 de terça, Gerôncio apresentava repertório de blues instrumntal em violão acústico no bar sem nome, situado no número 36 da rua estreita e fétida onde morava. E era dali que tirava o alimento, o cigarro e a cachaça. 

Balcão imundo, banquinhos redondos giratórios, mesas e cadeiras típicas de boteco barato, aposentados com tempo de sobra para perder ali e todo tipo imaginável de gente mal encaminhada na vida. Um universo perfeito que, em pouco tempo, conquistou a predileção de Gerôncio. E as pessoas, desprovidas de qualquer condição de apreciar outro tipo de arte, também gostavam das músicas desritimadas, desafinadas e permeadas por um lirísmo profundamente lamentável que ressoavam do violão de três cordas.

Àquelas horas, Gerôncio sentia-se pleno de algo que ele acreditava ser amor. Mas que na verdade não passava de uma entrega serena às dores da exposição vulnerável do seu lado mais ridículo, honesto, quase humano. Se redimia ali do infortúnio natural das coisas. Fazia parte agora  da construção da estrutura caótica daquele pequeno pedaço de inferno que fazia-se, por sua vez, repleto da feiura e do fedor de Gerôncio.

Ao contrário do que se possa imaginar, não era um homem triste. Ele era mais do que isso. Era despido de alegria, de tristeza...Era uma alma sem corpo. Era um traço maldito, indispensável porém maldito, nos planos dos deuses e das sortes. Era uma partícula de equilíbrio entre os sabores e as agruras do mundo. Vivia numa teia articulada de revéses e venturas, um dependendo diretamente do outro para ser sentido. E o sentido da vida de Gerôncio era transitar inclinado-se entre eles, num desequilíbrio absoluto e perigoso.

A noite ia larga no relógio e na monotonia. E a visão embaçada avisava que era hora de beber a saideira dose e partir. Caminhada solitária e um vão infinito na mente. Desorientado, Gerôncio tentava achar alguma música no pensamento pra servir de companhia silenciosa. Lembrava somente de algumas passagens da Bíblia. Gerôncio era agnóstico. Leu a bíblia no banheiro, durante anos. Lembra ainda o nome do calmante que esquecera de tomar. Que esquecera de comprar. Mesmo que tivesse lembrado, não compraria. Não tem dinheiro pra gastar com luxos.

Gerôncio ainda queria saber onde perdeu a humanidade. Queria ver no passado o que o fazia odiar de maneira absoluta todos os traços do presente e desdenhar do futuro com a energia de um cadáver. Mas queria saber onde perdeu a humanidde. Queria e pronto. Nunca gostou de explicar particularidades  porque também não era chegado a questionar manias e desejos alheios.

Achava tudo, tudo, tudo, muito normal, muito infeliz e extremamente pretencioso. Desde a criação das coisas úteis, até a invenção dos sentimentos. Aos 60 anos, não lembrava de alegrias, não contava com a suavidade cortante das boas memórias. Bom, pelo menos se distanciava de qualquer saudade importante.

O sol mais uma vez ergue das trevas um novo dia para o desgosto de Gerôncio. Arregala os olhos, olha firme as paredes do quarto, respira fundo, senta na cama e murmura aos amigos imaginários:

- Que disgrasssa!!!



Escrito por Sacy A#-3 Bebum às 13h16
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